Paulo Ribeiro - Psicologia do Esporte! Agenda Indique o Site Informações E-mail / Contato Dúvidas Adicione o site aos seus Favoritos
Canais
Biografia
Vida Profissional
Depoimentos
Agradecimentos
Livro de Visitas
Palestras
Artigos
Fatos Importantes
Livros
Contato
Links
Forum
Cartão Virtual
Chat
Tempo
Informações

O Modelo Cognitivo de A. Beck e sua Aplicação no Campo da Psicologia Esportiva.

Autor: Erick Conde
ckconde@bol.com.br

Se dedicarmos um tempo para analisar o desenrolar do esporte competitivo durante as últimas décadas, poderemos notar uma grande mudança em seu panorama. Atualmente vemos nos atletas um nível técnico mais aprimorado e uma preparação física que supera a que gerações anteriores possuíam.

Somam-se aos aspectos desencadeadores dessas mudanças a evolução da medicina, a implementação e evolução da fisioterapia, dos aparelhos fisioterápicos, e a inserção da fisiologia e da psicologia no contexto esportivo. Essa revolução vem fazendo com que as competições assumam um caráter cada vez mais dinâmico e equilibrado.

Em função de toda essa dinâmica imposta por esse novo rumo que o esporte vem assumindo, a psicologia deveria se adequar às exigências do novo paradigma esportivo e adotar uma postura breve na preparação emocional de atletas competidores.

A prática da psicologia esportiva nos dias atuais conta com diversos psicólogos trabalhando com uma grande variedade de teorias. Podemos ver isso no livro de Machado (1997), onde o autor cita algumas teorias que se aplicariam ao estudo do esporte e dos atletas. O autor citou a teoria psicanalítica de Freud, a teoria Reichiana, a teoria analítica de Jung, Eric Fromm e Henry A. Murray, entre outros mais.

O objetivo do presente capítulo é apresentar e discutir uma outra teoria que poderia servir de base para a prática da psicologia esportiva, e que também se adequa à dinâmica do esporte atual: o modelo cognitivo.

Com suas raízes no behavorismo metodológico, o modelo cognitivo foi desenvolvido por Aaron T. Beck durante a década de 60, em decorrência de estudos e da insatisfação pessoal de Beck com as formulações psicodinâmicas a respeito da depressão (Falcone apud Rangé, 2001). A partir da observação de pacientes deprimidos, Beck notou que o conteúdo dos pensamentos e dos sonhos de tais pacientes assumiam o mesmo conteúdo negativista. Depois da aplicação de várias testagens e de muita observação, Beck concluiu o modelo cognitivo da depressão. Publicações posteriores ampliaram a aplicação da teoria para o tratamento de outros tipos de transtorno (Falcone apud Rangé, 2001). Sofrendo influências da fenomenologia, do estruturalismo, da psicologia cognitiva e da teoria das emoções, o modelo cognitivo e a terapia cognitiva, surgem junto a outras formas de terapias cognitivo-comportamentais, tais como a terapia racional-emotiva de Albert Ellis, a terapia multimodal de Arnold Lazarus e a modificação cognitivo-comportamental de Donald Meichenbaum (Beck, 1997; Rangé,2001).

A eficácia da terapia cognitiva foi comprovada em diversos experimentos e estudos realizados no tratamento do transtorno do pânico, transtorno depressivo maior, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno alimentares e fobia social, entre outros.

A base do modelo cognitivo é a idéia de que os pensamentos do indivíduo irão influenciar diretamente na maneira dele se comportar e sentir. Portanto uma distorção na forma de perceber uma situação poderia influenciar o humor e o comportamento do sujeito a ponto de deixá-los disfuncionais (Beck, 1997).

Beck (1997) nos fala de três níveis de pensamento: os pensamentos automáticos, as crenças intermediárias, e as crenças centrais. Os pensamentos automáticos seriam o nível mais superficial do pensamento, e se caracterizam por serem rápidos, repentinos, involuntários, e de fácil identificação, já que após um pequeno treinamento o sujeito já consegue identificá-los sem problemas. Existem dois tipos de pensamentos automáticos: os pensamentos em forma de palavras não faladas (p. ex., "como eu errei a primeira jogada, eu não estou em um bom dia, por isso vou errar as próximas"); e os pensamentos em forma de imagens (p. ex., visualizar futuros passes errados em uma partida de futebol). Pessoas com transtornos psicológicos geralmente apresentam muitas distorções em seus pensamentos automáticos, porém não são os únicos a possuírem tal disfuncionabilidade, visto que comumente indivíduos que não possuem transtornos psicológicos demonstram algumas distorções em seus pensamentos. As distorções nos pensamentos automáticos são denominadas de erros cognitivos. Falcone apud Rangé (2001) fala de sete tipos de erros cognitivos. A inferência arbitrária seria uma dessas distorções, e consiste em conclusões que o indivíduo tira, sem possuir evidências suficientes (p. ex., "ele deve estar achando que eu não estou jogando bem"); outro erro cognitivo seria a abstração seletiva, onde a pessoa conseguiria apenas ver os aspectos negativos de uma situação (p. ex., "droga, sofremos um gol em apenas um minuto de jogo"); quando o atleta tira uma conclusão negativa radical que ultrapassa a realidade da situação, ele está cometendo a supergeneralização (p. ex., "não tenho condições de ganhar de ninguém nesse torneio"); a desqualificação do positivo também é uma distorção cognitiva onde o sujeito diz a si mesmo que as experiências positivas são irrelevantes (p. ex., "fiz uma boa campanha no campeonato estadual, mas isso não significa que sou um bom atleta, apenas tive sorte"); na personalização, vemos o indivíduo associar eventos externos a si, mesmo não existindo relação alguma (p. ex., "o técnico não me escalou porque não o cumprimentei no treino da semana passada"); a catastrofização é uma distorção na qual o sujeito prevê um futuro negativo, sem considerar resultados mais prováveis (p. ex., "vamos perder de goleada"); e na leitura mental, a pessoa acha que sabe o que os outros estão pensando (p. ex., "o técnico está achando que eu deveria jogar mais recuado").

Em um segundo nível estão as crenças intermediárias, as quais não são de tão fácil identificação e modificação quanto os pensamentos automáticos, porém possuem ainda uma certa maleabilidade. São constituídas por regras e suposições, ou seja, as idéias do indivíduo podem assumir formato de regra (p. ex., "para conseguir o que quero tenho que trabalhar o mais arduamente possível e dar o melhor de mim"), ou de suposição (p. ex., "se eu ficar muito tempo com a bola, então as pessoas vão ver que eu não sou um bom jogador"). Os exemplos dados acima são exemplos de crenças disfuncionais, porém nada impede do indivíduo ter crenças como: "posso conseguir o que quero despendendo uma boa quantidade de energia para esse fim", ou "sou um jogador que tenho algum talento, e devo ficar com a bola o tempo necessário". De acordo com Beck apud Rangé (2001), as crenças intermediárias seriam uma forma que o indivíduo encontra para reduzir o sofrimento causado pelas crenças centrais.

A partir da necessidade de atribuir um sentido ao ambiente que o cerca, o indivíduo vai desde o início de sua vida construindo suas crenças centrais, por isso a interação com as pessoas e com o mundo é fator determinante na estruturação dessas crenças. Portanto os pais que desmerecem as atitudes dos filhos, ou os criticam constantemente, podem ajudar seus filhos a elaborarem crenças centrais do tipo: "não sou bom o suficiente", "não consigo fazer nada certo", "eu sou inadequado", "não tenho valor", "eu sou um fracasso", entre outras.

Na verdade, as crenças centrais são entendimentos fundamentais, rígidos e resistentes, os quais os sujeitos consideram como verdades absolutas. Elas constituem o nível mais profundo da cognição humana. Beck (1997) chama de esquemas o conjunto de crenças centrais.

Após descrever os três níveis do pensamento humano, nos resta entender como eles funcionam: as crenças centrais são responsáveis pela criação das crenças intermediárias, que, por sua vez, atuam influenciando a visão que o indivíduo tem de uma situação, o que conseqüentemente vai interferir nos pensamentos do indivíduo, nas emoções e comportamentos a eles conectados. Como exemplo poderíamos ter um atleta com a seguinte crença central: "sou inadequado", o que resultaria nas seguintes suposições: "se me mostrar seguro, me sairei bem"; "se eu errar, me mostrar inseguro ou com ansiedade, todos vão ver que eu não presto". Tais crenças intermediárias podem levar o sujeito a apresentar comportamentos de esquiva, de fuga, ou até fazer com que ele se culpe demais e experimente muita tristeza por ter errado.


Aplicação


A idéia trazida pelo modelo cognitivo (de que a situação em si não é determinante na origem do problema, mas sim as interpretações que o indivíduo tira dos acontecimentos), nos permite não só intervir junto aos atletas e à comissão técnica, mas também estudar e compreender certos fenômenos do meio esportivo, como por exemplo, a relação entre o público espectador e os atletas. Cratty (1984), ao tentar explicar a interferência da torcida no desempenho esportivo, cita justamente a idéia central da teoria de Beck:

"Um dos fatores mais importantes que, no momento, se acredita ser um modificador crucial para o desempenho do atleta é o que se chama potencial de avaliação de uma torcida. Isto é, a excitação e tensão e a possível ansiedade do jogador não parecem derivar simplesmente da presença de observadores, mas sim de maneira pela qual o atleta (ou uma pessoa executando uma técnica numa atividade experimental) considera o potencial de avaliação do observador" (Cratty, 1984).

As idéias de Beck também podem nos servir de base para a elaboração de dinâmicas de grupo que, mesmo sendo indispensáveis no trabalho com equipes esportivas, não serão abordadas neste capítulo, cujo enfoque é o trabalho individual.

O trabalho do psicólogo do esporte se diferencia um pouco do realizado pelo psicólogo clínico, visto que ao primeiro não cabe, e talvez nem seja possível, realizar uma terapia com os atletas. Portanto, se for diagnosticado um transtorno psicológico, ou se o atleta apresentar questões que necessitem de um tratamento psicoterápico, é importante que o mesmo seja encaminhado a um psicólogo clínico.

A terapia cognitiva funciona da seguinte maneira: as primeiras sessões são destinadas à conceituação do caso pelo terapeuta, e à socialização e adesão do paciente à terapia. Em uma segunda etapa, o processo terapêutico vai se voltar para a modificação dos comportamentos e sentimentos disfuncionais através da reestruturação dos pensamentos distorcidos. Com a diminuição dos sintomas, o terapeuta começa com um processo de modificação das crenças subjacentes (regras e suposições), para depois intervir junto às crenças centrais. O último passo da terapia consiste em prevenir recaídas (Falcone apud Rangé, 2001). Já, no modelo cognitivo aplicado ao esporte, o trabalho psicológico não irá perpassar por todas essas etapas. Na realidade o trabalho vai focar principalmente os pensamentos automáticos disfuncionais, e os comportamentos e emoções deles derivados. As crenças intermediárias e centrais não serão abordadas diretamente, pois isso só seria possível através da terapia. Logo, elas sofrerão intervenção somente nos casos em que aparecerem no formato de pensamentos automáticos (p. ex.: "eu não presto"), mas mesmo assim, tais crenças certamente sofrerão certa reestruturação em decorrência das intervenções realizadas em cima dos pensamentos disfuncionais. É importante lembrar que é a demanda (da equipe, do atleta ou da comissão técnica) que vai determinar o trabalho a ser realizado, seja individual ou em grupo.

Visto que são os comportamentos e as emoções disfuncionais os primeiros a serem identificados, o primeiro passo seria avaliá-los, com o objetivo de obter uma visão mais realista do problema.

Para avaliar o comportamento nada melhor que uma boa observação e um contato direto com a comissão técnica, pois qualquer membro da comissão poderá revelar informações preciosas acerca do comportamento do jogador. Vale lembrar que as informações trazidas pelos próprios atletas não devem ser desconsideradas.

Para avaliar o humor, além de uma boa entrevista, podemos contar com escalas e inventários como o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (Speilberger apud Rangé, 2001), o Inventário de Ansiedade de Beck (Beck e Steer apud Rangé, 2001), o inventário de depressão de Beck (Beck apud Rangé, 2001), e o Inventário de Sintomas de Stress de Lipp-ISSL (Lipp apud Rangé, 2001), entre outros.

Assim como na terapia, o estabelecimento de uma aliança segura com o atleta e o trabalho colaborativo, serão fundamentais para a obtenção do êxito na preparação psicológica, portanto, a atenção, a cordialidade, a empatia e o respeito devem fazer parte do relacionamento entre o psicólogo e os atletas. Sobre o trabalho colaborativo, seria importante que, quando possível, o jogador participasse das decisões junto com o psicólogo, como por exemplo, elaborar tarefas para casa (Beck, 1997).

O cunho educativo é uma característica presente tanto no trabalho psicológico com o esporte como na clínica. Fazer com que o atleta aprenda a idéia central do modelo cognitivo, ou seja, ensiná-lo que seus pensamentos irão influenciar suas emoções e o seu desempenho dentro do campo, poderá ajudar o atleta a manejar suas emoções, o que conseqüentemente desencadeará uma importante vantagem em cima de seu adversário. Em uma matéria para um jornal espanhol, o psicólogo esportivo J. Carrascoso (2002) fala dessa importância do controle emocional:

"Aquel deportista que maneja conscientemente las emociones que identifican el estado ideal de rendimento, especialmente en las situaciones de máxima dificuldad, cobra una enorme ventaja sobre sus rivales y dispone de llave para rendir de forma óptima" (Carrascoso, 2002).

Outro fator fundamental é a contínua conceituação do atleta e dos seus padrões cognitivos pelo psicólogo, pois somente com tal formulação o psicólogo vai poder adequar e elaborar as intervenções ao funcionamento cognitivo de cada atleta. Portanto, o psicólogo deve procurar informações acerca dos problemas atuais da pessoa em diferentes esferas, ou seja, na família, nas amizades, na escola e no próprio meio esportivo (com a comissão técnica e com a equipe que trabalha); a condição financeira , a saúde, e a moradia também são fatores que devem ser investigados. A partir daí, deve-se tentar descobrir como os problemas pessoais estão se refletindo no comportamento do atleta, dentro e fora do ambiente esportivo, e que pensamentos e crenças disfuncionais estão fazendo com que o atleta apresente tais comportamentos disfuncionais.

A identificação dos pensamentos automáticos requer uma certa habilidade, porém não é algo difícil de ser realizado. Contudo, algumas pessoas poderão necessitar de uma maior orientação e prática para conseguir identificar seus pensamentos. Segundo Beck (1997), o momento ideal para se obter os pensamentos automáticos é quando a pessoa experimenta uma mudança ou intensificação do seu humor. Além dos indícios verbais, o psicólogo deve estar atento aos indícios não-verbais, como por exemplo uma mudança repentina no comportamento, pois tais indícios podem denunciar uma alteração na emoção do atleta. A pergunta básica a ser feita para se conseguir os pensamentos seria: o que estava passando pela sua cabeça no momento? O psicólogo esportivo deve ficar sempre alerta a possíveis pensamentos automáticos importantes implícitos nos discursos dos atletas.

Alguns problemas podem surgir durante a identificação dos pensamentos automáticos, como por exemplo, o atleta não se lembrar ou fornecer uma interpretação ao invés do pensamento em si. Além de fornecer uma melhor orientação, o psicólogo poderá contar com algumas técnicas para obter tais pensamentos, como a visualização ou a dramatização, as quais serão abordadas mais adiante. Portanto, frente a um esquecimento, o psicólogo poderia pedir ao atleta para imaginar a situação em questão como se ela estivesse ocorrendo no momento atual. Usar o máximo de detalhes possíveis iria facilitar o êxito no trabalho.

Ainda seguindo as idéias de Beck (1997), após identificar um pensamento acompanhado de aflição e de reações emocionais, comportamentais e fisiológicas importantes, o próximo passo seria avaliar o pensamento, pois não se pode saber se o pensamento é realmente distorcido antes de avaliá-lo. Para isso, o psicólogo e o atleta devem, de forma colaborativa, examinar e testar a validade e a utilidade do pensamento automático, assim como elaborar uma resposta mais adaptativa. Um padrão de perguntas é sugerido: "quais são as evidências que apóiam essa idéia?" "Quais são as evidências contra essa idéia?" "Existe alguma explicação alternativa?" "Qual é o pior que poderia acontecer?" "Eu poderia superar isso?" "O que de melhor poderia acontecer?" "Qual é o resultado mais realista?" "Qual poderia ser o efeito de mudar meu pensamento?" "O que eu deveria fazer em relação a isso?" "O que eu diria a um amigo se ele estivesse na mesma situação?" As perguntas sugeridas, denominadas de questionamento socrático, além de possibilitar uma avaliação do pensamento automático, irão favorecer a reestruração do pensamento, caso ele realmente seja distorcido, e ainda poderão ser utilizadas como intervenções em diferentes situações.

Uma outra forma de favorecer a reestruturação cognitiva é através da aplicação de algumas técnicas como examinar as vantagens e desvantagens de um comportamento, um pensamento, ou uma crença. Esta técnica é muito útil para a reestruturação cognitiva ( Falcone apud Rangé, 2001).

O continuum cognitivo é uma técnica que pode auxiliar muito na modificação de pensamentos polarizados (p. ex.: "eu sou o pior jogador do mundo"). A técnica consiste na construção de um continuum que vai de um extremo ao outro (de 0% a 100%), e a seguir se solicita ao atleta que especifique as características de cada extremo. Logo depois é pedido para atleta que se coloque no continuum, assim como alguns outros exemplos. Para ilustrar teríamos um suposto atleta que se considerava o pior jogador do Brasil. Quando questionado sobre as características do jogador que assume o posto de 100%, ele respondeu que seria um jogador em perfeitas condições físicas, mentais e com um nível técnico e tático acima do normal. Já, o jogador da outra extremidade do continuum, seria um jogador completamente fora de forma, com inúmeros problemas pessoais e sem nenhum conhecimento técnico e tático. Ele colocou na melhor posição o seu ídolo, um jogador profissional que já foi até campeão do mundo. Na outra ponta do continuum, o atleta colocou um jogador que atua nas categorias de base de um time pequeno, e em seguida se permitiu ocupar o posto de 50%. Esta técnica ajudará o sujeito a se avaliar de uma forma menos disfuncional (Falcone apud Rangé, 2001).

O levantamento histórico seria uma maneira de levantar evidências contra, e à favor do pensamento ou crença disfuncional do atleta, e assim ajudá-lo a avaliar mais adequadamente determinadas situações. Por exemplo: um atleta desmotivado acha que nunca vai conseguir a titularidade, e anda pensando em desistir da carreira no esporte. Após uma análise do seu passado viu que já obteve muitos méritos importantes devido a sua dedicação. Dessa maneira, ele reavaliou seus pensamentos e passou a perceber a situação não mais como um grande problema, mas sim como um desafio a ser superado.

Para obter um resultado satisfatório em qualquer modalidade esportiva, todo atleta necessita de uma boa capacidade de concentração. Para ajudá-lo o psicólogo pode ensinar duas estratégias muito úteis: a técnica da distração ou a da refocalização. Na refocalização, de acordo com Beck (1997), o psicólogo ensina o atleta a voltar a sua atenção à tarefa realizada. Para exemplificar teríamos um jogador passando por problemas familiares, o qual relata desviar sua atenção para eles durante o jogo. O psicólogo deveria ensiná-lo a, assim que notasse sua concentração se desvanecendo, refocalizar o jogo do qual participa. Já, a técnica da distração faria com que o jogador selecionasse os eventos nos quais se atentaria, por exemplo, em um jogo realizado no campo do adversário a equipe deveria tentar se desligar da fervorosa torcida oposta, a qual provavelmente traria importantes prejuízos ao time se este interiorizasse suas provocações.

A visualização, mentalização ou imaginação é uma técnica que pode ser utilizada em diversas situações. Uma delas seria no atendimento individual, onde a técnica serviria para ajudar o atleta a se recordar e identificar alguns pensamentos ou emoções, ou seja, a visualização de determinada situação e seus mínimos detalhes vai ajudar o atleta a descobrir quais pensamentos automáticos estão atrapalhando sua performance, e a partir disso, corrigir tais pensamentos. Orientar o jogador ou a equipe a visualizar momentos de glórias seria uma outra forma de utilizar a mentalização, agora em prol de melhorar a auto-estima e a motivação. Samulski (1998) chama de treinamento mental a mentalização da ação esportiva. Eberspächer apud Samulski (1998) fala em três formas de treinamento mental: no primeiro tipo o indivíduo deveria imaginar, de forma bem definida, um filme onde praticasse o movimento esportivo desejado. Este seria o treinamento de auto-observação. No treinamento ideomotor, a pessoa mentalizaria, de forma intensa e profunda, toda a perspectiva interna do movimento. Já, o treinamento de autoverbalização consiste verbalizar mentalmente a prática da ação esportiva.

Além das técnicas já mencionadas o psicólogo pode contar com outras inúmeras técnicas dentre as quais duas se destacam pelo fato de se constituírem excelentes formas de intervenção e oferecerem ótimos resultados. São elas: a dramatização e as técnicas de relaxamento. O Relaxamento Progressivo de Jacobson, também chamado de Relaxamento Neuromuscular, é, segundo Becker Jr. e Samulski (1998), uma das técnicas de relaxamento mais conhecida e aplicada no mundo. Esse método, apesar de abordar também aspectos cognitivos, é mais direcionado para a fisiologia do sujeito, o qual aprende a avaliar suas tensões em algumas musculaturas específicas e, depois, a relaxá-las. A ênfase fisiológica faz esse tipo de relaxamento se aplicar muito bem ao esporte, podendo ser usado para amenizar estados ansiosos e para auxiliar na recuperação do atleta depois de um treinamento intensivo ou de uma competição acirrada.

Apesar do modelo cognitivo servir de base para todo um trabalho psicológico com o esporte, é muito importante que o profissional adepto dessa eficaz teoria não se restrinja apenas a ela, pois com certeza existem centenas de outras contribuições teóricas muito importantes para a psicologia esportiva.

Finalizando, gostaria de sugerir ao psicólogo que deseja utilizar o modelo cognitivo em seu trabalho com o esporte, que se informe mais acerca da teoria de Aaron T. Beck, seja através da leitura ou de cursos específicos.



Bibliografia:

Psicologia no Esporte: 2a edição. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil - CRATTY, B. J. (1984).

Psicologia do Esporte: Temas emergentes I. Jundiaí, São Paulo: Ápice - MACHADO, A. A. (1997).

Terapia Cognitiva: Teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas - BECK, J. S. (1997).

A mente Vencendo o Humor:Porto Alegre: Artes Médicas - GREENBERGER, D.; PADESKY, C. A. (1999).

Manual de Treinamento Psicológico
: Novo Hamburgo, RS: Feevale - BECKER JR., B.; SAMULSKY, D. (1998).

Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: Um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed Editora - RANGÉ, B. (2001).

Futeboltecnic.com: Revista espanhola - CARRASCOSO, (2002).

Copyright 2003 - PAULO RIBEIRO - Psicologia do Esporte! Todos os direitos estão reservados ao autor do site.